terça-feira, 20 de novembro de 2007

Por falar no dia de hoje...

Então, hoje é o tal Dia da Consciência Negra.

Ter um dia específico para isso me parece um pouco de preconceito. Afinal somos todos iguais, não?

Meus pais e minha família toda, em geral, sempre foram muito esclarecidos a este respeito. Por isso, tanto eu quanto meu irmão nunca fizemos distinção nenhuma das pessoas por causa da cor da pele.

Minha mãe conta que quando eu tinha 3 anos, ela estava caminhando comigo numa calçada estreita quando passou um rapaz de pele negra ao nosso lado, deve ter sido o primeiro negro que eu vi na vida, porque diz ela que eu falei bem baixinho:

"Cuidado pra não encostar nele mamãe, ele está sujo de graxa!"

Então ela me explicou que não era sujeira, que cada pessoa tinha uma cor de pele diferente, uns eram mais brancos, outros mais amarelos, outros mais corados, outros mais morenos, etc., mas que éramos todos iguais. E me fez comparar a cor da pele do meu braço com o braço dela mesma e depois com o do meu pai, com o do meu irmão, e conseguiu me mostrar que de fato, cada pessoa tinha um tom de pele diferente...

Tomo esta atitude da minha mãe como um exemplo. Tenho certeza que naquele dia ela poderia ter plantado um preconceito dentro de mim caso tivesse sugerido que aquele rapaz era diferente, mas não, ela mostrou que a minha pele era diferente da do meu pai, diferente da pele do meu irmão e diferente da pele daquele rapaz, e que isso era perfeitamente comum.

Eu comecei a notar que havia discriminação por causa da cor da pele na primeira série do primário, quando algumas crianças me perguntavam:

- Por que você é amiga da Márcia?

E eu respondia sempre:

- Porque ela é bem legal e é muito boa no caçador (jogo também conhecido como queimada), ela sempre me salva!

- Mas ela é preta!

- Ué, o que que tem? Põe o seu braço aqui do lado do meu ó! Tá vendo? A sua cor não é igual a minha também...

Não consegui convencer toda a classe de que a Márcia era igual a gente... mas lembro que muitas crianças eram amigas da Márcia no final do ano.

Hoje eu vejo que alguns negros têm auto-preconceito.

Teve uma cliente minha, aqui da contrutora, que queria fazer umas modificações no seu apartamento, mas eu expliquei umas 5 vezes que não eram mais possíveis devido ao prazo e mesmo devido à possibilidade técnica de execução do que ela queria.

Ela insistiu na posição dela e eu bati o pé dizendo que não era possível e pronto. Pois ela chegou ao ponto de dizer que eu não estava querendo executar a modificação somente porque ela era negra.

Detalhe... eu nunca nem tinha visto a pessoa, só falava com ela por telefone e e-mail, mas nunca nem sequer a tinha visto, como é que eu poderia discriminá-la pela cor se a única coisa que eu conhecia dela era a voz?

Eu sei que tem muita gente que ainda discrimina pessoas por causa da cor, sei que os negros ainda são minoria nas faculdades, mas não acho que um Dia da Consciência Negra ou cotas para negros nas universidades vão reduzir estas "diferenças" impostas por parte da sociedade, pelo contrário, acho que, infelizmente, isso só vai fazer a manutenção dessas diferenças, só vai ressaltar uma diferença que na verdade nem existe.
Acho que a conscientização deve partir dos pais, estes devem ensinar aos seus filhos que não existem diferenças na essência das pessoas apenas porque uma tem pele clara ou escura, olho preto ou azul, cabelo enrolado o ou liso... Até porque, estas pequenas diferenças são comuns mesmo entre membros de uma mesma família!

2 comentários:

Yvonne disse...

Anna, você está certíssima, tem negro que se coloca na defensiva já alegando preconceito de cor, mas é que realmente são muitos anos de racismo, né? Beijocas

MH disse...

Fantástico esse texto. Fiz até uma menção a ele no meu texto "Colors". bj