quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

LENDA URBANA 02

Sobre travesseiros
Tânia e César eram casados há pouco mais de um ano.
Toda noite ela fazia tudo igual...
Preparava e servia o jantar, arrumava a cozinha, assistia à novela, preparava um chá, tomava o seu banho, escovava os dentes, colocava a camisola (ou o pijama) passava seus hidratantes no corpo e no rosto, escovava os cabelos, perfumava-se, arrumava a cama e ficava lendo um trecho de algum livro até que o marido viesse deitar.

O casal praticamente não brigava, nem mesmo discutia. Davam-se muito bem, entendiam-se, completavam-se, conheciam-se muito bem (ou pelo menos achavam que se conheciam)
Ao arrumar a cama para dormir, todos os dias, Tânia colocava um travesseiro mais baixo para ela e um travesseiro mais alto para o marido.
Ela preferia o travesseiro mais alto, porém, deixava-o para o marido, pois julgava que aquele era o melhor travesseiro.

Certo dia, Tânia foi parar no hospital por conta de um problema na coluna. O marido foi buscá-la no final da tarde.
César não fez o jantar, mas pediu comida de um bom restaurante, serviu o jantar para a esposa, lavou as louças e até arrumou a cama.
Ao se deitar, Tânia percebeu que César havia colocado o travesseiro mais alto para ela e pensou comovida:
“Que querido! Deixou o melhor travesseiro para mim.”
César por sua vez, ao se deitar naquela mesma noite pensou:
“Bem, estou fazendo minha boa ação do mês, mereço dormir bem.”

Passaram-se mais dois dias nos quais César providenciou o jantar, cuidou das louças e fez a cama para Tânia se deitar (sempre deixando o travesseiro mais alto para ela), mas ele já estava ficando estressado com aquelas tarefas rotineiras e deu graças a Deus quando viu Tânia cuidando do jantar na noite seguinte, principalmente porque ele havia tido um dia muito difícil no trabalho e estava com os nervos à flor da pele.
Ela estava feliz com a idéia do marido ajudar nas tarefas em casa, afinal ela trabalhava tanto quanto ele. Mas ela percebeu que o marido estava muito nervoso naquela noite e evitou pedir ajuda para pôr a mesa.
Ficou irritada com a demora dele em sentar a mesa para jantar, não gostou dos comentários que ele fez sobre a sua comida, ficou possessa porque ele se retirou da mesa antes de ela terminar de comer, mas principalmente porque ele arrotou assim que virou as costas para ela e não retirou nem mesmo o seu próprio prato da mesa.

Apesar da irritação com o marido, Tânia voltou a fazer o seu ritual noturno: banho, dentes, camisola, hidratantes, cabelos, perfume e... preparar a cama...
Sem nenhum carinho ela afofou o travesseiro alto e colocou-o no lado da cama no qual ela dormia, mas no mesmo momento lembrou enternecidamente da atitude do marido nos dias anteriores a acabou mudando o travesseiro para o lado onde César dormia, apesar do mau humor e grosserias daquela noite, ela reconhecia que ele tinha sido um doce de pessoa nos últimos dias e merecia o melhor travesseiro.
Quando César entrou no quarto, Tânia já estava dormindo, ele então apagou a luz do abajur e deitou.

Assim que encostou a cabeça no travesseiro César se levantou novamente, pegou o travesseiro e jogou na parede pensando enfurecidamente:
- Droga, essa folgada já pegou o meu travesseiro de volta, e agora eu tenho que dormir com esta porcaria de novo!? Prefiro dormir sem travesseiro!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Utilidades domésticas inúteis

Tá legal, eu admito!
Sou fanática por utensílios domésticos, objetos de decoração, luminárias modernas, roupas de cama, mesa e banho, etc.

Na minha cozinha tem os mais variados, coloridos e curiosos utensílios domésticos (que eu pouco uso). Em cima da bancada da cozinha ficam vários jogos de potes em vidro ou acrílico com os mais variados formatos repletos de arroz, feijão (apesar de eu nunca ter cozinhado feijão em casa), vários formatos e tipos de macarrão, café (apesar de eu ter feito café em casa apenas umas 4 vezes desde que casei), açúcar, sucrilhos, biscoitos, amendoins, etc. Tenho cafeteira moderna e bonitona, liquidificador, batedeira, sanduicheira, churrasqueira elétrica, George Foreman Grill, multiprocessador de alimentos, mixer, etc.

A cafeteira eu já usei umas 4 vezes em quase um ano.
O liquidificador eu comecei a usar nesta semana, para fazer sucos naturais, uso total: 2 vezes.
A batedeira ainda está na caixa, assim como o multiprocessador, o mixer e a churrasqueira elétrica.
De tudo isso o que eu uso mesmo é o George, claro, e a sanduicheira.
Vale observar que eu não comprei tudo isso sabendo que ia ficar no armário, viu. Eu ganhei tudo no casamento. Tudo bem que a lista de presentes fui eu que montei.

O pequeno detalhe que torna tudo isso praticamente um “elefante branco” dentro da minha cozinha é que eu detesto cozinhar. Eu me apego a estes utensílios pelo design, pela beleza, pela cor, porque combinam com a decoração, por diversos motivos, menos pela real utilidade que eles têm dentro da cozinha.
Um analista diria que eu me apego a estes itens na tentativa de começar a gostar de cozinhar, porque eu não admito não saber fazer direito algo que a maioria das pessoas faz bem e faz com gosto. Talvez ele tivesse razão.
E talvez isso esteja ajudando, de fato. Só o tempo (talvez uns 10 anos) dirá.

Outra coisa que faz meus olhos brilharem é toalha de banho e roupa de cama.
Passeando pelo shopping na hora do almoço vi na vitrine da Zêlo uma estampa que eu adorei. Controlei meus impulsos (coisa que eu aprendi a fazer direitinho, graças à Deus) e não comprei, nem entrei na loja para não cair em tentação maior ainda.

A minha tática é a seguinte, eu vejo o produto, gosto, pergunto o preço, digo que estou com pressa e que volto buscar mais tarde ou no dia seguinte.
Então vou pra casa e tento levar minha vida normalmente, sem pensar naquele produto.
Como eu sei que tenho mesmo que comprar?
Quando fico me lembrando do objeto de desejo o tempo inteiro. Se a imagem dele passar pela minha cabeça mais vezes por dia do que o normal é porque eu tenho que comprar. Na maioria das vezes eu acabo esquecendo o produto, não compro e ele não me faz a menor falta.

Mas com esse jogo de cama da Zêlo não foi assim. Nem entrei na loja para perguntar o preço. À noite, em casa, entrei no site da loja, olhei todas as opções de produtos naquela linha e descobri que o preço não era absurdo mas, logicamente, não era dos mais baratos, afinal era assinado por um designer famoso.
Tudo bem. Fui dormir.
Até eu conseguir pregar os olhos eu pensei naquele jogo coordenado umas 5 vezes.
No dia seguinte, acordei cedo e fui trabalhar. No caminho eu já fui pensando no jogo.
Trabalhei a manhã toda num ritmo acelerado, mas sem deixar de lembrar do tal jogo coordenado.
Olhei o extrato da conta bancária (porque eu não gosto de comprar nada parcelado), coloquei na ponta do lápis todas as contas que tem para vencer agora em janeiro e fevereiro (que não são poucas, pelamor!) e tomei a decisão.

Meio dia em ponto eu saí em disparada para o shopping.
Entrei na loja e já fui logo dando nome e sobrenome da linha em que eu estava interessada. A vendedora jogou um balde de água fria em cima de mim.
- Eu não tenho mais este produto na loja, acabou.
- Ah... acabou? – a decepção deve ter ficado estampada no meu rosto.
- Mas devo receber mais amanhã!
... E o brilho voltou a inundar meus olhos!!!

Deixei nome, telefone, endereço, tudo que fosse necessário para ela me encontrar assim que chegassem as peças desejadas. Teria deixado até um sinal de negócio se fosse preciso, mas não foi, lógico.
Voltei um pouco decepcionada para o meu trabalho porque normalmente os vendedores não se lembram de te ligar, mas fui com uma pontinha de esperança.

Ontem após o almoço recebi uma ligação no celular enquanto estava resolvendo um assunto importante do trabalho e preferi não atender, pois não reconheci o número (era a vendedora).
A secretária não me passou uma ligação porque sabia que eu estava ocupada e não lhe pareceu um assunto tão importante o da ligação (era novamente a vendedora).
Lá pelo meio da tarde o celular tocou novamente e desta vez eu atendi, era mais uma vez a insistente (ainda bem!) vendedora da Zêlo avisando que havia recebido as mercadorias e perguntando se podia separar um jogo para mim...
VALEU ARACI!!!
Mal podia esperar pela hora de ir embora para poder passar na loja e pegar o tão sonhado coordenado composto por edredom, porta travesseiros, lençol, sobre-lençol e fronhas... como um outro qualquer.

Mesmo com compromisso marcado para a noite e, sabendo que eu poderia me atrasar por causa do trânsito, fui para o shopping. Enfrentei um trânsito terrível. Quando estava a 3 quadras do shopping encontrei uma vaga para estacionar na rua. Não pensei duas vezes, estacionei e fui andando, tenho certeza de que cheguei mais rápido assim do que se tivesse ido com o carro até o estacionamento do shopping.
Entrei na loja quase saltitando de tão feliz. Agradeci várias vezes à atenção da vendedora e saí de lá com meu jogo de cama tão desejado em duas big-sacolas que chegavam arrastar no chão. Lembram que eu havia deixado o carro a três quadras do shopping, né? Pois é... Mas ainda assim eu fui feliz da vida.

Como eu tinha dois aniversários para ir ontem a noite, não deu tempo de colocar o jogo novo na cama... Mas hoje, quando chegar em casa à noite, vai ser a primeira coisa que eu vou fazer!

Por que eu escrevi tudo isso?
Só para provar pra mim mesma que eu não comprei por impulso! Eu precisava deste jogo de cama!


Meu nome é Anna e eu estou há 246 dias sem comprar nem um alfinete por impulso.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

LENDA URBANNA 01 (parte 02 - final)

- E por quê você tem medo de tomar essa decisão comigo por perto?
- Porque eu posso estar tentando me agarrar em alguma coisa que não vai existir...
- Como assim?
- Não quero tomar essa decisão pensando que depois que eu me separar nós dois vamos poder voltar a ter algum relacionamento, por que não é esta a intenção. E mesmo que a gente volte a se relacionar não significa que vá dar certo... Já não deu uma vez.
- Não estou entendendo, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
...
- Passamos quase um ano sem nem ter notícias um do outro, e quando nos reencontramos a crise do meu casamento já estava no auge, portanto não quero enganar a mim mesma achando que agora que eu lhe reencontrei e que sei que você está separado eu posso ter a coragem de acabar com o meu casamento porque ainda tenho uma chance de ser feliz com você, por isso tenho te evitado tanto nesses últimos dias. Só tenho ido àquele restaurante quando não tenho tempo para ir para outro lugar mais longe, não queria mesmo te encontrar, e quando te vi hoje, tentei desviar para ver se você não me via... Quero tomar essa decisão pelo que eu sinto, pelo que há entre mim e meu marido, só isso. Não quero me sentir influenciada por terceiros.
- E eu acho que essa é forma mais certa de tomar esta decisão, você está certíssima. Se eu soubesse que estava nesse ponto não teria ido falar com você hoje. Mas eu notei que alguma coisa estava errada com você, eu te conheço há muitos anos, sei identificar quando você está bem ou não há 50 metros de distância.
- ...
- Eu não quis te influenciar... Perdão!
- Você me influenciaria até a 50 metros de distância, sem nem abrir a boca.
Ele deu um sorriso meio tímido e agora foi ele quem baixou os olhos.
- Quer saber, já que você disse isso vou ser bem sincero com você... Eu quero mais é que você se separe, pois eu sou louco por você ainda... Cada vez que te encontro naquele restaurante fico feito um bobo tentando fazer você me enxergar, perco até a vontade de comer, tenho vontade de ir até a sua mesa e te dar um beijo daqueles cinematográficos, mostrar pra todo mundo que eu sou louco por você. E hoje quando vi você começar a chorar tive vontade de te dizer “ Ta vendo, eu falei para você não casar... Você tinha que ter aceitado o meu pedido de casamento há anos atrás, e daí se nós éramos muito novos ainda?... nós tínhamos condições de casar, e mais chances de sermos felizes juntos do que com as pessoas que escolhemos anos mais tarde.” Mas achei que seria crueldade demais te dizer isso.
- Quem garante que teríamos sido felizes se eu tivesse aceitado o seu pedido naquela época?
- Pára de ser racional, garota! Esse foi o maior erro da sua vida, ser racional demais!
- Você pode estar certo... Acha mesmo que é melhor eu parar de ser racional?
- Eu prefiro.
- Ok, você quem pediu...

Ela segurou o rosto dele em suas mãos e o beijou com um desejo que estava guardado há anos... Ele segurou nos ombros dela e afastou-a de si, assustado. Ela, mais assustada ainda, indagou:
- O que foi agora?
- Você tem certeza do que está fazendo?
- Não sei, deixei de ser racional há alguns segundos. – e avançou novamente na direção dele, que a segurou novamente.
- Você está ciente de que eu não me responsabilizo por como ou onde isso aqui vai terminar ok?
Ela fez que sim com a cabeça e foi fechando os olhos, quase desmaiando enquanto sentia o braço forte lhe apertando cada vez mais contra o corpo dele, lhe dava calafrios na espinha aquela mão grande e pesada, sedenta, percorrendo seu corpo, seu pescoço, segurando seu cabelo, dava-lhe uma sensação de ser desejada, coisa que não sentia mais desde... Puxa! Nem sabia mais precisar quanto tempo fazia...
Ele fez com que ela deitasse no sofá, e com uma mão segurando-lhe os cabelos na nuca, foi abrindo os botões da camisa branca que ela usava e veio beijando seus lábios, pescoço, colo, seios... à medida que ia vencendo a barreira de botões podia ver a lingerie branca, delicadamente rendada que ela estava usando... Ela quase não conseguia se mexer, tamanho torpor que lhe causava aquele homem. As mãos dele invadiam seu corpo por debaixo da saia preta... Ele sabia que ela o desejava muito naquele momento.
Ela começou a abrir os botões da camisa branca descompromissada que ele usava por cima do jeans, explorando aquele peito com mãos firmes. Ajudou-o a livrar-se da camisa e aproveitou-se da posição para ficar por cima, abrindo a calça jeans dele como quem está com pressa, com urgência.
Ela livrou-se da própria camisa e da saia enquanto ele a olhava alucinado de desejo. Ele puxou-a pela cintura, pressionando seu corpo contra o dela e o desejo culminou num gozo sincronizado, alucinado, quase exagerado.
Mais à tarde, quando ela repousava sobre o peito dele, nua e sonolenta, ele admirava a mulher que queria ter para sempre em seus braços e, sem nem se mexer, disse baixinho:
- Ei, você está dormindo?
- Quase...
- Se por acaso você decidir por não se separar...
- Hum?!
- Posso ser seu amante?

LENDA URBANNA

Êêêêê... Feliz 2008 para todo mundo (mas principalmente para vocês meus poucos, mas queridíssimos leitores)!


Estou voltando à ativa no blog (porque para o trabalho eu já voltei desde segunda) e começo o ano inaugurando uma nova seção aqui no blog, chamada LENDA URBANNA.


O que é?

Quando vocês se depararem com o título LENDA URBANNA, pode saber... Lá vem lorota!
Éééé, isso mesmo, lorota... Ou uma obra de ficção, como preferirem.
O fato é que o título serve para identificar que não, em absoluto, essas estórias não aconteceram comigo, são apenas frutos da minha imaginação. Talvez contenham algumas cenas de vida real, afinal, como todos sabem, a arte pode imitar a vida! Mas quando há cenas reais no meio do texto, pode acreditar, elas servem apenas de inspiração para eu poder aumentar e inventar toda uma estória.


Então... Senta que lá vem a estória!!!



LENDA URBANNA 01 (parte 01)


Encontraram-se num restaurante, hora de almoço, plena segunda-feira. Ela o viu, mas preferiu fingir que não tinha visto. Sabia que não seria bom conversar com ele. Estava passando por uma fase difícil em seu casamento, e aproveitava o período em que o marido estava viajando para tentar colocar a cabeça no lugar e tentar descobrir qual seria a melhor atitude a ser tomada. E sabia que a proximidade daquele homem poderia interferir na sua decisão.
Ela percebeu que ele esticava o pescoço na sua direção, como quem quer ver e ser visto. Distraiu-se olhando para um casal que chegava com duas crianças pequenas, foi acompanhando-os com o olhar e, de repente, o rosto dele surgiu entre ela e o casal com as crianças. Ele acenou, falou alguma coisa com o colega que estava sentado na mesma mesa, e levantou, começando a caminhar em sua direção.
Ela ferveu e ao mesmo tempo congelou no pouco tempo entre ele se levantar e chegar até ela.
...
Puxou uma cadeira e perguntou se poderia sentar-se. Ela consentiu com um sorriso.
Conversaram sobre o trabalho de cada um, perguntaram dos amigos em comum, até que veio a pergunta que ela sabia que viria cedo ou tarde...
- Como está seu casamento?
- Ah, está indo muito bem... – ela sentiu um nó na garganta e só conseguia pensar que não era hora nem lugar para chorar, baixou a cabeça, piscou os olhos rapidamente na intenção de conter as lágrimas que insistiam em inundar seus olhos e começou a remexer a comida no prato.
Ele colocou a mão direita no seu rosto, tentando erguê-lo para constatar o que ele já imaginava... Ela estava chorando. Ela sempre fazia isso quando não conseguia conter o choro, baixava a cabeça e ficava mexendo com qualquer coisa que estivesse ao seu alcance, abaixo da linha dos olhos. E ele conhecia essa mulher desde que ela era apenas uma garotinha, passou bons anos convivendo com ela diariamente e, como amigo, sabia mais das fraquezas e manias dela do que ela mesma. Além se saber, por amigos em comum, que o casamento dela estava com os dias contados.
- Ei, o que houve? – disse ele passando o polegar no rosto dela mais para acariciá-lo do que para enxugar suas lágrimas.
Ela ficou em silêncio.
- Venha comigo, vamos conversar num local mais tranqüilo. – disse ele já se levantando
- Melhor não... Você tem que voltar ao trabalho e eu também, eu vou ficar bem, pode deixar.
- Não discuta. Você está de carro, certo?
Ela balançou a cabeça em sinal positivo.
- Me dá um segundo, apenas.
...
Ele foi até a mesa onde estava antes, entregou as chaves do carro para o colega que estava com ele, falou alguma coisa e voltou à mesa dela, afastou a cadeira, ajudando-a a se levantar e saíram do restaurante. Ela colocou as chaves do seu carro na mão dele.
- Pra onde você quer ir?
- Qualquer lugar...
Ela reconheceu o caminho que ele estava fazendo... Percebeu que estavam indo para o apartamento dele. Ele não perguntou nada durante o trajeto e ela não disse uma palavra sequer.
Estacionaram o carro na garagem, chamaram o elevador, subiram sem trocar sequer uma palavra, ela permanecia com o olhar baixo, como se estivesse com vergonha da cena que ele havia presenciado, sentia que ele a olhava com piedade, e isso a incomodava muito.
...
Ele abriu a porta do apartamento, fez com que ela entrasse. Ofereceu-lhe uma bebida, ela recusou enquanto sentava-se no sofá. Ele sentou-se na mesa de centro, ficou frente a frente com ela e disse:
- Sou todo ouvidos, se quiser desabafar... Mas se não quiser falar nada eu vou entender e sou capaz de ficar aqui o resto do dia, só olhando para você.
Ela foi falando devagar, com calma, tentando não chorar. Contou-lhe todos os problemas que vinham tomando conta de seu casamento, contou-lhe que estava num momento crucial, decidindo entre continuar ou interromper o casamento e que não sabia se teria condições de continuar. Ele quase não falou, afinal era o menos indicado para falar de casamento, ficou casado por um ano, mas desde o primeiro mês já dizia que não ia durar muito tempo, dizia ter tomado a decisão errada e na hora errada.
Ela desabafou, sentiu-se aliviada e já estava até rindo com ele quando, de repente, ele ficou sério, segurou as mãos dela e disse olhando nos seus olhos:
- Não gosto de dar conselhos, ainda mais este que vou lhe dar agora, pois sei que pode não ser imparcial devido ao relacionamento que já tivemos e o sentimento que nunca se extinguiu em mim...
Ela corou. Sabia que mexia com ele ainda, da mesma forma que ele mexia com ela, baixou os olhos, mas resolveu que devia encarar aquilo de frente, não era mais uma garotinha como antes, sabia-se capaz de enfrentar aquilo, só não sabia se seria a forma mais certa. Encarou-o.
- Não adianta você insistir num relacionamento que está te fazendo infeliz. Eu te conheço há muito tempo e consigo perceber só nos esbarrões que temos dado por aí que você não está feliz. Hoje foi a gota d’água, eu tenho que te falar que, por experiência própria, não vale a pena ficar adiando a decisão, tentando tapar o sol com a peneira. Você conhece a história de como acabou meu casamento, foi mais doloroso do que teria sido se eu tivesse tomado a decisão antes. Portanto, minha linda, tome a sua decisão de uma vez por todas, porque assim você está sofrendo demais, sofre antes, durante e depois. O peso de tomar a decisão, a insegurança, o medo, tudo isso faz muito mal. Você vai ver que, mesmo que você decida acabar com o seu casamento, vai ser mais fácil do que você pensa, todo mundo é contra, mas só você é quem sabe o que está passando e o que pode ser melhor para você.
- Eu sei de tudo isso, mas tenho ensaiado para tomar essa decisão. Não é fácil. Envolve muita coisa, muito sentimento, tenho medo de magoá-lo demais.
- Chega de pensar nos outros... Pense um pouco em você, dor de amor passa, mas viver o resto da vida infeliz não dá. Você é uma mulher independente, sempre foi segura de si, não é agora que vai se deixar abater, atrofiar...
- Você tem razão... Mas tenho medo de tomar essa decisão com você por perto.


(Continua)